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1984 não será como 1984

1984 não será como 1984

O Apple Watch vai além de um gadget vestível, representa a volta ao passado (e o revival daquele que estava caindo no esquecimento: o relógio de pulso)

*por Suzana Cohen

O lançamento do Apple Watch na última terça-feira – apesar da falta de ineditismo – pode representar um marco importante na computação vestível e na história do relógio de pulso.

Afinal, o número de pessoas que optam por essa facilidade do século XX tem sido cada vez menor. Os que ainda o usam geralmente se dividem entre os que prezam a estética e aqueles que prezam a funcionalidade.

Sabemos bem que a Samsung já havia lançado o Galaxy Gear há um bocadinho de tempo e os smartwatches floreiam aqui e acolá, a todo momento. No entanto, uma coisa é certa: a Apple tem qualidade e um poder mercadológico, sedutor e de influência sem igual. Os seus lançamentos acabam ganhando destaque ao cubo e tornam-se rapidamente objetos de desejo pelas hordas de seguidores hipnotizados mundo afora.

Em vez de nos atermos aos detalhes das inovações do Apple Watch, dois outros aspectos nos parecem curiosos e dignos de reflexão: 1) a história do relógio de pulso e a relação disso com a Apple; 2) os 30 anos do Mac e a referência a 1984. Senta que lá vem história.

SANTOS DUMONT, O RELÓGIO DE PULSO E A APPLE

Não ao acaso, esse lançamento e a discussão sobre seu não-ineditismo nos remete à “criação” do relógio de pulso. A invenção é largamente atribuída a Santos Dumont, o pai da aviação. No entanto existem controvérsias quanto ao ineditismo de sua criação. Afinal, o relógio de pulso já existia como adereço feminino e antes disso, lá no século XIX, houve uma encomenda de um lote a oficiais navais. Nenhum dos dois vingou. Santos Dumont, ele sim, ao encomendar à Cartier um relógio que o deixasse com as mãos livres para pilotar, acabou dando o pontapé à popularidade dos relógios de pulso – tão em voga no século XX.

Um elemento importante a ser ressaltado nesta invenção foi a então a necessidade de se ter as mãos livres.

Quando voltamos à computação vestível, vemos seu principal objetivo também é o de proporcionar ergonomia sem igual, livrando os usuários de terem as mãos ocupadas com gadgets tecnológicos. Seriam os celulares uma espécie de retrocesso – algo como a volta ao relógio de bolso???

O lançamento da Apple segue exatamente o caminho proposto por Dumont. É por isso que esse primeiro lançamento de tecnologia vestível pela maçã gigante carrega em si um marco importante. A história vai e vem. Repaginada, mas com essências que já vimos lá atrás.

Se a Apple não tivesse investido no relógio como seu primeiro gadget vestível, será que a história do relógio de pulso teria um fim próximo?

Parte II: GEORGE ORWELL, A PARANÓIA E A IRONIA DISSO TUDO

Uma das grandes inovações do Watch está relacionada à saúde. De acordo com a fabricante, o relógio vem equipado com recursos que conseguem medir a pulsação do usuário e o esforço físico que ele faz ao longo do dia. Contar passos, mensurar calorias gastas e sugestão de metas são alguns dos exemplos dessa inovação.

É inspirador pensar na praticidade disso tudo e de como sua vida pode melhorar. A Apple é mestre em criar esses conceitos <3

Por outro lado é inevitável não se lembrar de 1984, o clássico de George Orwell (e, ironicamente, o ano (e tema) de lançamento do Mac, que em janeiro completou os 30).

Estamos – aos poucos – sendo vigiados?

Na obra de Orwell as pessoas vivem um uma sociedade controlada pelo Big Brother, a autoridade máxima do estado, o que não pode ser contrariado e muito menos questionado. Nesta sociedade as pessoas têm “teletelas” em suas casas, algo como um espelho-tela-filmadora em que seus movimentos são controlados e vigiados constantemente. Nesta sociedade tudo é absurdamente controlado, inclusive a hora que você acorda e a atividade física que você pratica.

“”Smith!’, berrou a voz nojenta na teletela. ‘6079 SmithW! Isso mesmo, você! Incline-se mais por favor! Você não está dando tudo que pode. Não está se esforçando. Assim! Agora está melhor camarada’.”
(GEORGE ORWELL, 1984, p. 49)

No fim das contas, vale a reflexão. Qual caminho trilhará a sociedade conectada?

Somos entusiastas e a favor da tecnologia. Mas enquanto laboratório de pesquisa em tendências, temos a missão de analisar criticamente as modernidades, olhar para o passado – e pensar um pouco além – para projetar o futuro.

 Este foi o comercial-teaser do Macintosh em 1984. Ele é uma referência clara ao livro de Orwell. “1984 não será como 1984”.

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